NAMASTÉ

Estremecidamente religioso é o acto de contemplar, intensa e amorosamente, uma face. Nisso ascendemos a deuses.

DO TEMPO
Como verdadeiro Criador, António Conceição Júnior põe um nome às coisas que faz. Criação é isso também: inscrever um nome, atribuír un múnero. De nume.
Só disto depende a aura numinosa das obras, a sua participação do divino, intemporal e perene.
Criador de Moda, ei-lo serve de uma situação paradoxal. Escravo, por função, do Império do Efémero, compelido às leis de ferro do sistema imposto, A.CEJUNIOR, recusa a subserviência às jacobinações sazonais que ditam apenas o triunfo comercial. O seu título de nobreza é rejeitar a moda da Moda.
Por isso sempre prefaciei os seus desfiles com a invocação visível ou discreta dos arquétipos ou modelos que elege, matrizes dos variáveis modos que se declinam no discurso sucessivo do desfile.
Por quaisquer caminhos acedeu António Conceição Júnior ao conhecimento de que a Cultura pressupõe sempre um Culto. Por tudo isto, os tipos iniciais ou primordiais que propõe, são incólumes à foice saturnina, damas, guerreiros ou anjos, heróis de todos os tempos e espaços; por isso os seus desfiles participam do segredo da arte teatral, onde os personagens, onde os personagens são no final o contrário do que eram no princípio; por isso ele nomeia o préstito das suas criações e as distingue com um título.

DO ESPAÇO E DO NOME
Os caminhos de António Conceição Júnior são os da peregrinação transculturante. Macaense porque Português, Português porque Macaense.
Nómada de geografias ainda puras, entre os paralelos mais solares do extremo Ocidente ao extremo Oriente. Agora, o Nome é Namasté. Não sei que nome é este. Mas inculca-me uma jovem deusa, ao mesmo tempo venusiana e demeteriana, Face do Silêncio e Encarnação absoluto do Mistério, imóvel fonte da perturbação. Amá-la, só, dar-nos-ia a imortalidade.
Chamem-se o que se chamarem, estes mantos ou capas, ou véus, pretendem uma mesma coisa na sua comum simbologia e linguagem: concentrar-se na relevância e enobrecimento da cabeça, sede solar do espírito, e velar a fronteira entre profano e sagrado, entre a exterioridade frívola do mundo e a interioridade verdadeira do ser, entre trevas exteriores e caminho íntimo que conduz à luz, entre ocultação e revelação.
Como a cortina de um teatro, criam e saparam dois universos, desencadeiam o maior jogo ao semi- encobrirem a face, convocando o ritual social do mistério e da sedução.
NAMASTÉ - erigindo esta enigmática personagem, António Conceição Júnior expõe-se agora de novo em cena, abrindo o seu préstito com esta figura, tipode de novas formas imaginadas, fidelíssimo aos seus arquétipos universais, dos mesmos do seu percurso.

A CABEÇA, O ROSTO E OS OLHOS
Se o corpo todo é manifestação de matéria, no seu cerne simboliza a cabeça o espírito manifestado.
Na escultura geral do corpo humano, é como se membros inferiores e tronco fossem a simples peanha da cabeça, o fuste de um capitel real. Segundo a secreta lei das correspondências, não é por acaso que a geometria sagrada vê, na sua forma esférica, um universo. Assim a viu Platão. Ela é um microcosmo.
Sede do Altíssimo, tudo nele converge para o símbolo da unidade e da perfeição, da realeza e da divindade.
Sede do princípio activo, a sua volumetria apela ao complemento solar e irradiante da coroa.Não se pode imaginar uma cabeça sem o requinte escultórico do rosto. Aí se concentra a ígnea potência do artista Criador. A face é o desvelamento da pessoa. É o seuíntimo que se desnuda. O écran luminoso dos tenebrosos abismos interiores. Em todo o corpo só ela é reveladora. Verdadeiramente, o nu só nela existe. Só nela se projecta e adivinha a luz.
Matéria deste desde dentro iluminada, o rosto que não irradia é uma prótese, máscara ou persona de plástico.
Ninguëm vê o seu rosto senão ao espelho. Por isso o rosto de cada um não é para o próprio, é sempre para o Outro, e para a divindade, na sua linguagem silenciosa.
Entremecidamente religioso é o acto de contemplar, intensa e amorosamente, uma face. Nisso ascendemos a deuses. Para compreender um rosto, é preciso lentidão, paciência, e sermos possessos do Amor como o autor da Criação.
Ter a virtude da contemplação. É aqui que nos descobrimos criminosos do quotidiano, quando perpassamos pelos rostos estranhos sem a convocatória do Amor, assim os destruíndo e assassinandos, porque os petrificamos.
Mas descemos também a Avenida da Liberdade, todas as Avenidas da Liberdade do planeta, e só a contemplação das expressões de triunfo ou desespêro que connosco se cruzam nos salvam da cidade absurda, do mesmo cenário, sempre o mesmo. Mas comove-nos, quantas vezes dolorosamente, num eléctrico, na mesa mais funda de um café, ante um rosto em frente, silenciosa aparição sublime entre
o caos banal. Num beco escuro, revivemos também as nossas noites de Emaús.
E no rosto, finalmente, os olhos, que são o rosto do rosto. Na sua transparência e mobilidade, a evidência de que possuímos uma alma movente. Em toda a existência da matérie obducte, são a única fresta por onde se adivinham os abismos, o insondável, a infinitude.Eles não são importantes porque vêem para forma,mas pelo que denunciam de império para dentro. Sem eles, existíamos entre muros. Com eles, sabemo-nos infinitos.
Aferir-se-á da energia espiritual de uma Cultura ou de um Tempo numa vestuárie, que se invista de ocultação, a ritualize na manifestação dos aderêços reveladores, quais sejam os véus e os leques.
Ou, sob outras formas, outros.
Dantes, decifrar minuciosamente um rosto era estar na posse de Deus. Hoje descrêmos que no rosto se manifeste o divino no ser, mas um qualquer instinto ou alerta para o abandono das máscaras, ou nos enfrenesia na invenção vertiginosa das suas contrafacções, de que o espectáculo da Moda é prova permanente.
Mais do que ninguém, sabe-o a sabedoria das mulheres que, sem o auxílio dos clássicos aderêços, na expressão da face cultivam o enigma e o mistério. É o segredo íntimo das coquetes, e das grandes sedutoras. Mulher fatal é a que, sempre em todos os tempos, nos fulmina com um olhar ou nos enlouquece com o mistério da sua máscara. De certa maneira, a generalização da maquilhagem no século passado veio em socorro do abandono das antigas velaturas.
ANTÓNIO CEJUNIOR nasceu, e sempre se vem confirmando como um Grande Criador. Um criador doutrinado.
Ele areja meridianos de espaço e de tempo, mas no seu nomadismo sempre retoma uma estirpe real e essencial da vestuárie humana intemporal, que sempre propõe, reinventada e actualizada, em novos modelos. Como agora, de novo. Como isto ele nos comprova que não foi comercial a eleição do seu leque para símbolo gráfico, um leque que mais do que um logotipo se inscreve definitivamente na heráldica própria ou silente divisa. É um autor nobre.
Por isso, e para além dos necessitantes tributos ao comércio, que não terão dignidade de história, o que nos importa é assinalar a sua fidelidade de criador culto, surpreendermos no desfile os momentos que nos reportam á atitude dos arquétipos pressupostos.
Numa época que esgotou as armas sentimentais do ritual erótico, que ignora que não é o corpo ocultado que é para desnudar, mas que só o que é verdadeiramente seu (o rosto) é queé para encobrir, vem-nos a saudade futura de um grande tempo onde a dimensão teatral fosse restaurada nos "passeios
públicos", em que nos vestissemos como os guerreiros, as semideias e as mulheres semi-veladas, misteriosas e fatais, concebidas por A.CEJUNIOR.
NAMASTÉ!

Março de 1995

Luís Sá Cunha