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É,
hoje, um lugar comum, dizer-se que Macau é sinónimo de singularidade,
encruzilhada, entreposto, entendimento, encontro, e tantos outros
atributos que o fim do império desvendou, destas tão longínquas e, até
então, ignoradas paragens do Levante.
Mas, simultâneamente ao enlevo que nos desperta este carinho tão
tardio quanto inconsequente, descobrem-se, em camadas sucessivas, uma
profunda superficialidade no conhecimento das ancestrais raízes que
fizeram e continuam a fazer desta terra um caso especial da História.
É fácil verificar, com mágoa bastante, que o produto mais nobre e sem
igual de todos os atributos atrás identificados, e que me dispenso de
repetir, é o macaense, filho da terra, que ao longo dos séculos foi,
verdadeiramente, o elo de ligação entre europeus e chineses, o "media"
da possível comunicação entre dois mundos tão diferentes e
frequentemente antagónicos, o redutor de reacções potencialmente
explosivas, a primeira linha de embate e absorção neste caudal
infinito de emoções, contradições, paixões e razões e razões, de que
Macau é feito.
Falar de Conceição Júnior, na sua dupla qualidade de homem e artista
é, antes de tudo o mais, eleger o macaense em si, chamar a sua
essência à boca da cena onde a sua obra se desvenda, é prestar
homenagem através de um dos seus à criatividade imensa, ao pragmatismo
militante, à versatilidade que emprega para comunicar através de
formas diversas, à ausência sentida, à saudade do passado e do futuro,
ao estar-se sem nunca se estar completamente bem, que caracteriza a
alma de todos aqueles que ao longo dos séculos vão forjando a essência
desta terra.
O Leal Senado, ao qual tenho a elevadíssima honra de presidir,
instituição radicalmente de Macau, pôde contar, durante mais de vinte
anos, com o contributo ímpar do Dr. António Conceição Júnior, sempre
em funções de elevada responsabilidade. Como conservador do Museu Luís
de Camões, primeiro, depois, também, como responsável máximo pelos
Serviços Recreativos e Culturais, teve este ilustre macaense um
ambiente propício para pôr a sua competência e elevados conhecimentos
ao serviço dos seus concidadãos, o que sempre fez com grande eficácia.
Ao Dr. Conceição Júnior, desejo as maiores felicidades pessoais e
profissionais e testemunho o imenso apreço pelo papel que tem
desempenhado nesta hercúlea tarefa que consiste em procurar aprofundar
a nossa própria identidade, em não deixar que outros façam por nós, ou
julguem fazer, aquilo que a nós próprios devemos exigir.
Ao amigo, que continue macaense, como sempre!
José Luís de Sales Marques
Presidente do Leal Senado*
*Designação
oficial da Câmara Municipal de Macau |