Pode surpreender que se
afirme, neste tempo de indiferença massificada, que a
capacidade de indignação seja uma virtude quase sacral. E mais
profano surgirá aos ouvidos de um qualquer mortal bem pensante que o
acto criador, na sua essência mais purificadora, purificada e
purificante, radique, quase sempre, numa indignação que bebe no
etimológico indignus . Mais prosaicamente: perante a indignação que a
realidade por vezes nos provoca, perante a violência que nos agride, o
criador dignifica a realidade para no-la devolver sublimada e
decantada na forma que, desde logo, é uma dignificação do criador e de
quem vê, porque todo o acto de leitura artística pressupõe, sempre, um
acto de apropriação.
É pois, este jogo de cumplicidades, esta poética dos sentidos que
tornam o criador um ser por natureza conflitual, repartido,
heteronímico, quer se invoque ou não, a lição de Pessoa.
Conheci o António Conceição Júnior na minha passagem por Macau, entre
os anos de 1995 e 1997. E conheci-o, convirá dizê-lo, fora dos
circuitos institucionais; aliás, onde melhor se conhecem os criadores.
Homem de Macau, português angustiado com o trilhar sinuoso com que os
vários poderes se vão entretendo - por entre flores de retórica e
fachadas mediáticas - a, mais uma vez, nada fazer pela cultura que é
nossa e de que não temos que nos envergonhar, António Conceição Júnior
é um homem indignado no mais nobre sentido da palavra.
Diz-me que cria sem angústia e com plena tranquilidade. Não acredito.
Mas sei o que me quer dizer não dizendo... Vejo-o procurar a paz
noutros paradigmas que não são os meus de ocidental não maastrichiano,
para mais e por demais marcado geracionalmente. Adivinho-lhe as
contradições. No fundo, é só perceber que a dignidade que procura é
similar à elegância das linhas que desenha, ou à textura dos tecidos
que escolhe. Mas, poeticamente, julgo tudo ser facilmente explicável:
o traço, o corte, a busca de estesia, entre o helénico e o oriental,
são a tradução da paz digna que quer mostrar aos outros, esforçando-se
por ocultar a sua justificada indignação.
Foi Rousseau quem disse que gostava maisde ser um homem de paradoxo do
que homem de preconceitos. O António é um normalíssimo cidadão; apenas
se distingue pela anormal coerência com que vive e sofre o real. Não
basta para chegar a santo; mas situa-o nos rituais iniciáticos que o
fazem militar nas hostes dos muitos sacerdotes laicos que sempre têm
sobre os demais, a possibilidade de ir cometendo pequenos pecados,
coisas de pequena monta que nem que os tutelares deuses caseiros
sempre acabam por desculpar na sua infinita generosidade.
Porém o António é também Conceição. A mesma raíz de conceber ; com
saber, ou seja, com arte de métier feito, e provas dadas como o atesta
o seu vasto curriculum.
Homem multifacetado, gostaria de ter conhecido o artesão Leonardo da
Vinci; e estou certo, gostaria de lhe ter ouvido aquela espantosa
máxima: "Nunca se mente sobre o passado". Porque o passado é o caldo
histórico-cultural onde mergulhamos para repensar este brevíssimo
trânsito terrestre. Ou, talvez, seja apenas mais uma fonte para nos
redimirmos de indignações primeiras.
Os traços de A. Conceição Júnior são Acrílicos, Mitos, Molduras, que
nos sinalizam Visões de civilizações complementares que a História se
encarregará de aproximar, pois os homens estão "condenados a
compreender-se".
Mas o António também é Júnior. É o mais novo. Desde logo, dele
próprio. Nele coexiste, sob a aparente tranquilidade de um treinado
autodomínio, a rebeldia e violência criadora do júnior que nunca se
deve deixar de ser.
Sofridamente, carrega consigo um Rasto de Seda, uma oriental brisa
soprada por um desconcertante leque musical que se expressa entre o
sussurro e a raiva, quase inaudível, ou tonitruante, em explosões
necessárias ao equilíbrio dos opostos. Porém, tudo digna e
paradoxalmente expresso pela indignação poética deste Amigo conhecido
e intuído.
José Oliveira Barata
Professor Catedrático da Faculdade de Letras
Universidade de Coimbra |