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O CRIADOR COMO ARTISTA
A necessidade do vestir é indissociável da condição humana. E não apenas
como defesa da nossa fragilidade carnal perante as mutações climáticas.
Mas antes também para afirmação de uma individualidade e sexualidade onde
quanto se cobre se descobre, memória ou latência de desocultáveis desejos.
Raramente, de facto, mulheres e homens aceitarão sua imagem no plano das
evidências inelutáveis. Ao inverso, consciente ou subconscientemente,
pretendem sempre metamorfosear aparências imediatas no esplendor possível
das aparições, condicionadas pelo meio geográfico, pela envolvência
cultural ou estatuto social que lhes sejam destino.
(...) Todavia, já cerca de 1950, com Christian Dior, o luxo tende a varrer
amargas memórias de luto e sofrimento. Após os que, na década seguinte,
Mary Quant e Courrèges abrem nova era de coexistência de diversos gostos,
progressivamente multinacionais, mas pela qual tardou a evidenciar-se a
presença de estilistas nacionais. e só muito perto de agora tem sido
colmatada... Embora apenas através de restritos nomes cuja contagem se
fará pelos dedos de uma só mão.
António Conceição Júnior cabe muito entre esses poucos. Com ele, o vestir
da mulher é poética do seu despi-la. Os corpos tornam-se espaço de fulgor
afectivo, no harmonioso contraponto dos tecidos manufacturados às texturas
orgânicas.
(...) Por bem saber do íntimo elo relacional ido do efémero ao eterno,
chamemos pois artista a este criador. Tanto mais que consigo também, a
palavra elegância ecoa a alma do mundo sem idade, num quotidiano desejado
de festa e ritual, até quando pontuado pela melancolia.
António Conceição Júnior transmuta consciente, e densamente, a
aprendizagem nisso lograda para uma dimensão estética que encarna no
perfil da mulher actual, evanescente estátua de um lirismo movente e
vivente. consoante ao esquecido voto dos primeiros modernistas, dir-se-ia.
Na verdade, "a moda, a moral, a paixão" já foram motivo de célebre poema
de Baudelaire, retomado no título recente da grande exposição parisiense.
Em António Conceição Júnior, os mencionados termos adequam-se a específica
criatividade susceptível de vencer barreiras, na pluralidade dos campos
expressivos trilhados pelo autor.
(...) Todavia tudo parece simples, quando a simplicidade é a emergência da
essencialidade verbal ou formal. Cerimónia dos corpos e dos gestos, de
tecidos singelos ou preciosos, a obra focada tem confirmado a razão
daquele aforismo em sucessivos espectáculos da beleza feminina.
Aqui é chegado o momento do silêncio encantamento, proporcionado pelas
imagens do criador-artista, português de junto à China, fabulosa e mítica
na sensibilidade ocidental, que António Conceição Júnior também conhece
intimamente, e constantemente enriquece num labor árduo vivenciado em
solidão ardente... desemboca em rara, esplendorasa, comunhão comunicativa.
Fernando Pernes |