ÁLBUM VENTO DE SHANTUNG - 2010

 

Reedição do álbum editado em 1977.

Às vezes basta abrir só uma janela para tudo se iluminar. Mesmo as coisas perdidas de um passado distante. Outras basta apenas respirar para que tudo se levante.

Aconteceu um dia, depois de uma conversa sobre um certo tema, chegar a casa de António Conceição Júnior e deparar com a sua sala repleta de desenhos. A mesa com as caricaturas políticas. As tiras dos jornais, os retratos dos amigos, esboços e testes que se estendiam pelas cadeiras e pelo chão. Em destaque a folha grande de um original, posta restante, de um álbum, de banda desenhada, também presente, saído em 1977. Lá dentro a corrente de ar do Vento de Santung, a erguer-se com a nossa pulsação, que aos poucos se foi transformando num ciclone ardente, progredindo para um tufão dentro nós, acalmando finalmente no dia de hoje aqui nesta sala.

A história recente é essa. O autor não precisa de apresentações. Mas falando dele, é mais difícil desvendar o que não fez do que aquilo que foi fazendo no que medeia entre a primeira e a segunda edição deste álbum que agora se manifesta. Como novo.

António Conceição Júnior escolhe não falar sobre o seu ofício artístico. Raramente o faz. Prefere fazer e concretizar o que pensa. E transmitir com isso a sua voz e a sua convicção. Deixando que o seu trabalho pronuncie as suas palavras. A sua alma. O seu sentir.

Ao achar-me no meio deste processo, no estímulo de se fazer uma nova impressão, que como resina se moldou à locomotiva do autor, quis lembrar-me, ou tentar recriar, dentro de mim, esses momentos e esse pedaço de vida, em que a obra foi produzida.

1976, Vila Franca de Xira, uma marquise cheia de sol, a telefonia a tocar, o choro de um bebé e um cavalete onde se montaram as pranchas que mais pareciam um lençol. Durante oito meses a mão assinou esse papel.

António Conceição Júnior, ou Cejunior, como preferirem, homem português, acima de tudo macaense, costelas do mundo inteiro, acredita que todo o dom se constrói. Que se molda pelo áspero de uma coragem, dessa insistência que descobre novos territórios, uma zona revolta da criatividade que é preciso despertar e ensinar a caminhar. Como quem pega na frescura de um principiante ou na mão de uma criança. Como a luz que entra na janela. Como o ar, mesmo poluído, que se inspira. E assim se compõem as notas de um destino e se dá rumo a toda uma vida. Memorável. Que nas suas mãos não cai apenas no elementar ritmo de uma roleta. Mas na música do poder racional.

Substituir todas as frases anteriores por voz, traço e iluminação.

Lá fora, um país conturbado, a viver sem freio encosta abaixo os espólios de uma revolução. O Homem, esse bicho raro. Uma coisa grande de se ver, irrequieto, cheio de amor por dar, mas também pejado de contradições. Capaz de tudo. Muitas vezes sem ver. Segue.

É nesse suavizar do imprevisto que encontramos Cejunior, professor numa escola secundária, no rascunho do seu atelier. Indiferente à pastelaria política mas perfeitamente integrado na sociedade que, ainda no tempo da velha senhora, já frequentara entre os doze e quinze anos. Sem esquecer toda uma juventude em Macau, um serviço militar, uma faculdade. A turbulência antes e depois do oásis dos cravos. E o sabor do Tejo. A preencher os intervalos de uma impaciência espiritual distinta.

Podia ter sido outra a história escolhida, mas o coração ditou, pela memória e saudade, a veia de uma profunda génese oriental. E é dos fragmentos da desmemória de um postal ilustrado, que nasce o manifesto desta obra, adágio que se amplifica de novo por entre os cantos destas páginas. Lado a lado. Como uma ave nas suaves margens de um templo, em pé-de-vento, ao ombro do seu mestre criador, de olhos cerrados.

E escutamos...

Um piar, um murmúrio. Essa voz silenciosa a ganhar o seu tom. Esse Homem. E o engenho a encher-se de brilho. Que na destreza da fala envolta em tradição e rumor, surge em pleno por entre as novas normas da cidade. Esta de paladar estranho onde vivemos. Que, por muito ou pouco tempo, escolhemos como nossa casa.
Nos elementos de um exercício de aprendizagem, que penetram nas linhas da mão como uma realidade adivinhada, partem em todas as direcções, no enevoado dos Setentas, com esse professor macaense, sol atrás de sol, meses a fio, com a vida a decorrer nos relevos do papel como um regresso antecipado. O desejo da arte marcial que se desorienta a caminho de Alverca. Como as tábuas dos antepassados. O dom cheio de consistência a comandar o seu tempo. Espadas, mitos, ventos. Deixam as linhas da marquise em reboliço, expressas num idioma que desconhece. Os filmes de Kung Fu, os Boxers, o ímpeto da ordem.

Wong Fei Hong (1847-1924), contemporâneo de Sun Iat-sen, é uma lenda do folclore chinês do Séc. XX. Mestre de artes-marcias e de medicina tradicional chinesa, acupunctor e homem de ideias revolucionárias, tornou-se um herói popular e objecto de numerosas séries de televisão e cinema que lhe deram a estampa da eternidade.

É essa fantástica personagem que figura no passaporte de António Conceição Júnior, à época professor de artes-visuais no ensino secundário, recriando a sua própria versão retirada, como já disse, das memórias da sua juventude e de um extenso universo místico oriental. Aqui exercitou a sua saudade ao aproximar a tinta ao papel. Como as primeiras camadas de resina da sua locomotiva acabada de estrear.

A história, enredo elementar de faca e alguidar, com um resquício de revolução e de agridoce político, trinta e três anos depois, não sofreu as rasuras do tempo e permanece, no seu traço firme e ágil, uma composição íntegra e permanente. Trazendo de novo essa figura misteriosa de Wong Fei Hong num episódio cheio de acção e dinamismo.

Sempre me disseram que para cantar é necessário ter uma voz. Uma verdade que palpita com o coração. Como uma janela. Outras pessoas acreditam que o talento vem da vontade. Conceição Júnior é uma delas. A vontade de fazer mais. De fazer pelo espaço que habita, desenhando-lhe o infinito. E são essas pessoas que podem fazer sempre muito e albergar um sem fim de gente nas carruagens que levantam. Peça valiosa para o muitas vezes deserto território macaense deveria ser mais do que apenas um nome. Ou do que o traço de uma marquise. De um passado que já não existe. Deveria ser modelo e engenho de um organismo sempre em edificação. A cada passo mais vivo. Mais forte. E esta reedição, no seu fim, é apenas um começo para o contínuo ímpeto do vento. Que sopra dos vales do domínio fecundo e criativo do Homem.

Eu não sei cantar. Mas acredito sempre que o mundo pode ser melhorado.
António Falcão

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   © António Conceição Júnior 1998