Aconteceu um dia, depois de uma conversa sobre um
certo tema, chegar a casa de António Conceição Júnior e deparar com
a sua sala repleta de desenhos. A mesa com as caricaturas políticas.
As tiras dos jornais, os retratos dos amigos, esboços e testes que
se estendiam pelas cadeiras e pelo chão. Em destaque a folha grande
de um original, posta restante, de um álbum, de banda desenhada,
também presente, saído em 1977. Lá dentro a corrente de ar do Vento
de Santung, a erguer-se com a nossa pulsação, que aos poucos se foi
transformando num ciclone ardente, progredindo para um tufão dentro
nós, acalmando finalmente no dia de hoje aqui nesta sala.
A história recente é essa. O autor não precisa de apresentações. Mas
falando dele, é mais difícil desvendar o que não fez do que aquilo
que foi fazendo no que medeia entre a primeira e a segunda edição
deste álbum que agora se manifesta. Como novo.
António Conceição Júnior escolhe não falar sobre o seu ofício
artístico. Raramente o faz. Prefere fazer e concretizar o que pensa.
E transmitir com isso a sua voz e a sua convicção. Deixando que o
seu trabalho pronuncie as suas palavras. A sua alma. O seu sentir.
Ao achar-me no meio deste processo, no estímulo de se fazer uma nova
impressão, que como resina se moldou à locomotiva do autor, quis
lembrar-me, ou tentar recriar, dentro de mim, esses momentos e esse
pedaço de vida, em que a obra foi produzida.
1976,
Vila Franca de Xira, uma marquise cheia de sol, a telefonia a tocar,
o choro de um bebé e um cavalete onde se montaram as pranchas que
mais pareciam um lençol. Durante oito meses a mão assinou esse
papel.
António Conceição Júnior, ou Cejunior, como preferirem, homem
português, acima de tudo macaense, costelas do mundo inteiro,
acredita que todo o dom se constrói. Que se molda pelo áspero de uma
coragem, dessa insistência que descobre novos territórios, uma zona
revolta da criatividade que é preciso despertar e ensinar a
caminhar. Como quem pega na frescura de um principiante ou na mão de
uma criança. Como a luz que entra na janela. Como o ar, mesmo
poluído, que se inspira. E assim se compõem as notas de um destino e
se dá rumo a toda uma vida. Memorável. Que nas suas mãos não cai
apenas no elementar ritmo de uma roleta. Mas na música do poder
racional.
Substituir todas as frases anteriores por voz, traço e iluminação.
Lá fora, um país conturbado, a viver sem freio encosta abaixo os
espólios de uma revolução. O Homem, esse bicho raro. Uma coisa
grande de se ver, irrequieto, cheio de amor por dar, mas também
pejado de contradições. Capaz de tudo. Muitas vezes sem ver. Segue.
É nesse suavizar do imprevisto que encontramos Cejunior, professor
numa escola secundária, no rascunho do seu atelier. Indiferente à
pastelaria política mas perfeitamente integrado na sociedade que,
ainda no tempo da velha senhora, já frequentara entre os doze e
quinze anos. Sem esquecer toda uma juventude em Macau, um serviço
militar, uma faculdade. A turbulência antes e depois do oásis dos
cravos. E o sabor do Tejo. A preencher os intervalos de uma
impaciência espiritual distinta.
Podia ter sido outra a história escolhida, mas o coração ditou, pela
memória e saudade, a veia de uma profunda génese oriental. E é dos
fragmentos da desmemória de um postal ilustrado, que nasce o
manifesto desta obra, adágio que se amplifica de novo por entre os
cantos destas páginas. Lado a lado. Como uma ave nas suaves margens
de um templo, em pé-de-vento, ao ombro do seu mestre criador, de
olhos cerrados.
E escutamos...
Um piar, um murmúrio. Essa voz silenciosa a ganhar o seu tom. Esse
Homem. E o engenho a encher-se de brilho. Que na destreza da fala
envolta em tradição e rumor, surge em pleno por entre as novas
normas da cidade. Esta de paladar estranho onde vivemos. Que, por
muito ou pouco tempo, escolhemos como nossa casa.
Nos elementos de um exercício de aprendizagem, que penetram nas
linhas da mão como uma realidade adivinhada, partem em todas as
direcções, no enevoado dos Setentas, com esse professor macaense,
sol atrás de sol, meses a fio, com a vida a decorrer nos relevos do
papel como um regresso antecipado. O desejo da arte marcial que se
desorienta a caminho de Alverca. Como as tábuas dos antepassados. O
dom cheio de consistência a comandar o seu tempo. Espadas, mitos,
ventos. Deixam as linhas da marquise em reboliço, expressas num
idioma que desconhece. Os filmes de Kung Fu, os Boxers, o ímpeto da
ordem.
Wong Fei Hong (1847-1924), contemporâneo de Sun Iat-sen, é uma lenda
do folclore chinês do Séc. XX. Mestre de artes-marcias e de medicina
tradicional chinesa, acupunctor e homem de ideias revolucionárias,
tornou-se um herói popular e objecto de numerosas séries de
televisão e cinema que lhe deram a estampa da eternidade.
É essa fantástica personagem que figura no passaporte de António
Conceição Júnior, à época professor de artes-visuais no ensino
secundário, recriando a sua própria versão retirada, como já disse,
das memórias da sua juventude e de um extenso universo místico
oriental. Aqui exercitou a sua saudade ao aproximar a tinta ao
papel. Como as primeiras camadas de resina da sua locomotiva acabada
de estrear.
A história, enredo elementar de faca e alguidar, com um resquício de
revolução e de agridoce político, trinta e três anos depois, não
sofreu as rasuras do tempo e permanece, no seu traço firme e ágil,
uma composição íntegra e permanente. Trazendo de novo essa figura
misteriosa de Wong Fei Hong num episódio cheio de acção e dinamismo.
Sempre me disseram que para cantar é necessário ter uma voz. Uma
verdade que palpita com o coração. Como uma janela. Outras pessoas
acreditam que o talento vem da vontade. Conceição Júnior é uma
delas. A vontade de fazer mais. De fazer pelo espaço que habita,
desenhando-lhe o infinito. E são essas pessoas que podem fazer
sempre muito e albergar um sem fim de gente nas carruagens que
levantam. Peça valiosa para o muitas vezes deserto território
macaense deveria ser mais do que apenas um nome. Ou do que o traço
de uma marquise. De um passado que já não existe. Deveria ser modelo
e engenho de um organismo sempre em edificação. A cada passo mais
vivo. Mais forte. E esta reedição, no seu fim, é apenas um começo
para o contínuo ímpeto do vento. Que sopra dos vales do domínio
fecundo e criativo do Homem.
Eu não sei cantar. Mas acredito sempre que o mundo pode ser
melhorado.
António Falcão |