Ir buscar ensinamentos aonde eles estão
por António Andrade

A primeira constatação resultante de uma visita ao site de António Conceição Júnior (AC J) poderá ser a de que a sua actividade se concretizou sempre em diferentes áreas criativas no contexto do design, das artes visuais e do espectáculo, alargando-se ainda à animação e gestão cultural, centradas nesse mesmo âmbito. E é perceptível também a sugestão de uma vontade de abrangência dominadora, ou seja, numa observação do conjunto do seu trabalho percebe-se o constante propósito de exercer, tanto quanto possível, o controlo dos diversos aspectos implicados em cada iniciativa por que se responsabiliza.

Sempre identifiquei esta vontade de abrangência na actividade de AC J e recordo-me perfeitamente de que ela se me tornou patente, com total eloquência, logo em 1978, no início da sua actividade à frente do Museu Luís de Camões, primeiro cargo que exerceu em Macau com óbvias implicações cívico-culturais.
Com isto quero significar que essa vocação para conduzir processos, enraíza numa sólida consciência cultural, pré-existente ao início das funções de direcção daquele Museu, em cujo desempenho AC J encontrou oportunidade de aplicação e frutificação, em benefício da Cidade.

O que então era o espólio do Museu, bem como o estado de letargia e amadorismo museográfico em que se encontrava, assim como a circunstância sócio-política de então, desafiaram essa consciência a assumir os objectivos e a acção que, com tenacidade e clarividência – e, nas circunstâncias, até com sua pitada de saudável quixotismo… – AC J soube propor e concretizar.

De facto, estabelecendo critérios de classificação, selecção e exibição das colecções, concebendo a proposta de remodelação das instalações, definindo necessidades em recursos humanos e proporcionando-lhes formação adequada para o exercício de diferentes funções, programando e levando à prática iniciativas de divulgação, conduzidas por critérios pedagógica e culturalmente esclarecidos e sobretudo sendo capaz de defender e sustentar, ao longo de vários anos, não só a adaptação oportuna das intenções iniciais, mas também a adopção de políticas culturais baseadas em pressupostos de responsabilidade institucional - condição indispensável a qualquer intervenção cultural que se queira situada numa perspectiva de futuro - AC J, aos vinte e sete anos de idade, encetou um caminho a que desde logo soube imprimir o estilo que o levaria a resultados situados em lugar de indiscutível destaque no desenvolvimento de Macau nas últimas décadas.

Alcance estratégico de um Museu
Acompanhei com alguma proximidade o processo da transformação revitalizadora do que até aí fora o Museu Luís de Camões, depositário de um espólio valioso mas desigual, durante anos amorosamente protegido por Luís Gonzaga Gomes e um pequeno núcleo de colaboradores, confinados ao espartilho da pequenez de meios, como, aliás, era timbre desses tempos de residual empenho governativo relativamente às políticas da Educação e da Cultura.
Concluo portanto que, à disponibilidade governamental pós-abrilina, para enveredar pela renovação da política cultural em Macau, correspondeu felizmente a identificação de uma pessoa apta para conceber formas de concretização de tal desígnio, por ser portadora de uma ambição esclarecida, capaz de idealizar muito para lá da mediocridade resignada e ousando propor o sonho, sem se deixar aprisionar pela frustração de não ver acolhidos, de onde em onde, projectos por vezes longamente elaborados (recordo-me, por exemplo, de uma proposta de AC J de ampliação das instalações do Museu que o transformariam num centro multicultural, na qual não só era apresentada, em desenho, a implantação, volumetria e funções do edifício, como eram sugeridas as linhas mestras da respectiva programação… E se tal proposta não teve vencimento, outras, mais afortunadas ou não, se lhe seguiram…).
Por outro lado, a natural discrição dos sinais de sucesso, em áreas onde este deve ser medido por critérios muito próprios, primordialmente atentos à qualidade do produto cultural oferecido, mas simultaneamente compreensivos da lentidão dos processos de formação de públicos, jamais parece ter abalado as convicções que alimentaram a visão estratégica de longo prazo de AC J, apostado num investimento de alcance cultural e cívico seguro.

Uma consciência actuante
A observação das datas das primeiras iniciativas da responsabilidade de AC J como Conservador do Museu Luís de Camões, permite perceber, de imediato, que ele estava animado de um ímpeto de intervenção que desde logo se projectou para lá da reformulação do Museu, pois data também desse mesmo ano de 1978 a publicação da revista ARTIS, tendo tido início já no ano seguinte a primeira campanha de obras de manutenção do edifício, de que resultaram melhorias muito significativas como a remodelação completa das áreas de exposição permanente e a criação de uma galeria de exposições temporárias. Reaberto o Museu em 1980, foi nesse mesmo ano ainda que AC J concretizou a I Quinzena de Macau, bem como a exposição Macau 400 anos de Oriente, ambas em Lisboa, na Fundação Calouste Gulbenkian. E data também desse mesmo ano a celebração de um Acordo de Intercâmbio Cultural entre Macau e Hong Kong, concebido e proposto por AC J.
Sucederam-se, pois, iniciativas projectadas segundo um princípio de coerência estratégica que, partindo da inventariação cuidadosa do espólio do Museu (em alguns casos com recurso a peritagens necessárias à verificação de classificações controversas), foi até à respectiva selecção, para fins de uma exibição criteriosamente organizada, ao mesmo tempo que se promovia a sensibilização junto das escolas e do público em geral, se realizavam sucessivas exposições temporárias de artistas locais ou vindos do exterior, sempre acompanhadas pela edição de catálogos, se experimentava o lançamento de um periódico – a já referida revista ARTIS - e, em livro, se reeditavam obras significativas de autores macaenses e se empreendiam algumas iniciativas de grande vulto no exterior, tudo isto tendo por base operacional o Museu Luís de Camões reestruturado e a sua divulgação, dentro e fora do Território, enquanto núcleo de referência de uma cultura macaense que assim se desenvolvia e dava a conhecer.
Foram anos de trabalho muitas vezes pioneiro em Macau, justamente considerado no respectivo mérito, visto que não só foi sustentada a sua prossecução, como lhe foi reconhecida dignidade institucional hierarquicamente superior com a nomeação de AC J, em 1984, para a chefia do Departamento dos Serviços Recreativos e Culturais do Leal Senado. De facto, tal nomeação veio consagrar, e mesmo reforçar, aquilo que se tornara notório: o dinamismo abrangente de AC J havia já criado um espaço próprio na vida cultural da cidade e tornava pertinente a sua colocação como programador e coordenador de toda a acção cultural do município macaense.
Em todas estas iniciativas se pôde sentir a marca própria de AC J, tanto na formulação da ideia geral de cada uma delas, própria de um espírito a um tempo informado e especulativo, como na respectiva concretização e no controlo dos pormenores, fundamentado num gosto muito pessoal pela manualidade e a visualização, vertentes decisivamente caracterizadoras do seu trabalho, a par de uma curiosidade insaciável.

Do trabalho a solo, à coordenação de equipas
Assente num constante diálogo interior entre pensamento e acção, trabalho mental e experiência sensorial, dir-se-ia que o ideal de realização de AC J visa sempre a unidade que se espera de uma obra de autor que se afirma enquanto tal, mesmo nos aspectos cuja execução é da responsabilidade dos colaboradores.
Isto pôs em evidência a capacidade de AC J para formar e liderar equipas, ao serviço de projectos seus, bem definidos nos objectivos específicos, na forma e no espírito que haveria de presidir à sua realização, tornando possível que apresentassem marca pessoal, empreendimentos tão diversos e complexos como, a título de exemplo, a já referida I Quinzena de Macau, em Lisboa, o ciclo de exposições Últimos Cem Anos da Pintura Portuguesa e a exposição Últimos Cem Anos da Pintura Chinesa, (Macau, 1986 e 87), as exposições Macau Passado e Presente e Macau Sortilégio (Lisboa, 1990), a apresentação em Macau da exposição Imagens da Pintura Portuguesa do Século XX (1995), ou a exposição Macau Via da Seda (Queluz,1993) e, naturalmente também, como exemplo de capacidade de iniciativa, criatividade e organização em larga escala, os diversos desfiles de moda que encenou, a partir de 1990, e nos quais foram apresentadas as colecções por si idealizadas e produzidas sob sua orientação.
Essa aptidão para os trabalhos de grande escala e complexidade organizativa, que exige coordenação de especialidades sob uma “batuta” capaz de garantir a harmonia final da realização de uma Ideia é, em qualquer autor, certamente uma modalidade de desenvolvimento do trabalho a solo, no qual, em regra, se fez a formação inicial, se adquiriu experiência, se desenvolveram projectos, enfim, se acumulou saber e se abriram horizontes.
Mas não é vulgar que uma mesma pessoa exerça as suas actividades, com igual à-vontade, em áreas bem distintas, alternadamente (quando não em simultâneo!) nas escalas individual e de grupo e seja capaz, até, de as fazer dialogar intimamente sem, no entanto, confundir as respectivas características. Tal capacidade exige grande disciplina de trabalho, requer o conhecimento seguro de diversos materiais e respectivas técnicas, pressupõe a existência de uma sensibilidade muito abrangente e de uma ambição imaginativa e corajosa mas, portanto, também um sentido de auto-crítica muito severo, sem o qual o risco da falha por incompetência é enorme.
Assim, observando a variedade de áreas específicas pelas quais o percurso criativo de AC J se tem materializado, é inevitável reconhecer que ele tem tido por base o tipo de sensibilidade muito ampla e de curiosidade sensorial tentacular que encaminham os interesses de algumas (raras) pessoas para a prática de diferentes actividades artísticas, naquilo que estas podem satisfazer um prazer muito específico, o prazer oficinal: o gosto da manipulação dos materiais, necessário à reinvenção das formas, a atracção pela experimentação de novas possibilidades, o fascínio pela descoberta pessoal de novos contextos de significação e tantas outras dimensões apaixonantes da criação estética.
Por isso, é de facto surpreendente o desdobramento de AC J em áreas por vezes tão distintas como a Banda Desenhada e a Joalharia, a Pintura de cavalete e a Encenação de desfiles de Moda, o Design de Numismática e o de Mobiliário, a Fotografia e a Museologia, o Design Filatélico e o de Espadas Japonesas, etc. E o que se evidencia nas produções correspondentes a cada uma destas áreas, é que a qualidade alcançada foi sempre, no mínimo, plenamente satisfatória, como se o autor só estivesse a aguardar a oportunidade do encontro com as circunstâncias que lhe permitissem começar a produzir novas peças em outros territórios de expressão, com a maturidade de um praticante de longa data.

Inovação re-criativa
A meu ver, em regra, as produções assinadas por AC J não se apresentam como experimentais (e menos ainda como experimentalistas, no sentido de corresponderem a uma qualquer intenção de inovação vanguardista), nem se constituem como elementos de um gráfico demonstrativo da evolução verificada numa sequência de descobertas inéditas. Antes se apresentam como outras realizações, tornadas possíveis pela passagem, em diferentes territórios expressivos e oficinais, de um pensamento estético fertilizante, herdado, sentido e aplicado para o efeito, num propósito de reinvenção, assente na assimilação de orientações formais já conhecidas, dentro das quais AC J opta por trabalhar.
Tal como o próprio AC J escreveu, embora num contexto bem diferente, apenas procuro ir buscar ensinamentos aonde eles estão, frase que, quanto a mim, sintetiza de forma lapidar o modelo comportamental que impulsiona a incessante viagem criativa de AC J.
De facto, a tónica da criatividade de AC J recai mais na reinvenção do que na procura da originalidade como valor em si, em demanda de inovação pura, aliás impossível. Ou seja, a reapropriação de formas identificadoras de universos culturais pré-existentes, mais do que a tentativa da invenção absoluta de novas formas. É por isso que, ao longo da sua produção, tanto se podem encontrar traços característicos de uma estética europeia contemporânea (em trabalhos de design, banda desenhada e pintura, por exemplo) como elementos de óbvia influência oriental (chinesa, indiana e japonesa, no design de moda e de mobiliário, por exemplo também). E estas referências, ora surgem combinadas num mesmo projecto ora, até, num mesmo objecto, agregando, com sensibilidade e sentido de harmonia, elementos de matriz cultural diversa.
É, afinal, a concretização, no plano da metodologia das soluções formais, da visão transcultural tão cara a AC J e por ele tão insistentemente colocada no vértice de toda a sua intervenção cívica e artística.
Assim, miscigenação cultural, transculturalidade, interculturalidade, não são, para AC J, chavões vazios de substância, proclamações demagógicas, retórica sem correspondência com a acção. Não sendo, felizmente, o único operador cultural que em Macau assume uma prática consequente e coerente com uma perspectiva transcultural, forçoso é reconhecer, no entanto, que talvez nenhuma outra personalidade tenha tido, nesse domínio, empenho comparável ao dele.

Essencialidade, elegância e solenidade
Há algumas palavras-conceito que representam, com razoável precisão, as características mais comuns à generalidade dos trabalhos de AC J : essencialidade, elegância e solenidade.
Outras ainda se poderão convocar para tornar mais preciso o retrato de um gosto cujos traços definidores já de há muito se reconhecem: requinte, hieratismo, limpidez, ritualidade, sintetização formal. De fora, ficam: a agressividade, o grotesco, a dramaticidade psicológica, o barroquismo. E será este o mapa verbal que pode representar as fronteiras do universo estético a que pertence a Obra de AC J. Pontualmente, afloram ainda o humor e o luxo. Quanto à sensualidade, é omnipresente.
Com mais ou menos evidência, estes são os ingredientes eleitos por AC J e presentes em toda a sua produção, os quais foram concedendo cada vez maior lugar à componente solenidade ritual, manifestação mais óbvia da influência da crescente aproximação às filosofias orientais, numa filiação que de certo modo contraria, no plano das realizações plásticas, a mais ampla transculturalidade, (que o próprio AC J desejaria equidistante) em favor de um orientalismo que, por sua vez, vem elegendo preferencialmente as afinidades formais com as filosofias orientais e a espiritualidade de expressão zen..
Assim, poder-se-ia concluir que a viagem a que anteriormente me referi, entre diferentes áreas tecno-expressivas, foi empreendida em simultâneo com uma outra viagem interior, pela qual AC J vem ascendendo a um conhecimento mais depurado do universo filosófico no qual procura fazer evoluir a sua compreensão da Vida.
Julgo que é exemplo deste estádio a prática do aikido e outras vertentes das filosofias orientais e é sintomático desta “atracção irresistível” o estudo e a produção de espadas japonesas, a que AC J se vem dedicando com profundo interesse, como o atestam os estudos teóricos que lhe dedicou (que foram até à publicação de textos) e muito especialmente as diversas espadas que redesenhou, fez produzir e comercializou.
Aliás, essa parece ser a manifestação da quinta-essência do requinte, da precisão e da ritualidade, numa vertente que começou por ser, para nós, motivo de estranheza, mas que acabámos por compreender enquanto previsível ponto de passagem para um autor que trilha, cada vez mais decididamente, os caminhos fascinantes da espiritualidade oriental.
Já se percebeu que é prematuro concluir que se está perante um ponto de chegada, o fim de um percurso ou, sequer, o encerramento definitivo de um ciclo. Percebe-se, isso sim, que, mais uma vez, AC J se prepara para invadir novo território, ou progredir por um daqueles por onde já anteriormente viajou. Às suas mãos, e na sua mente, as constantes da essencialidade, da elegância e da solenidade ritual conhecerão ainda muitas outras oportunidades…

Outro instrumento do mesmo combate
De uma forma que se poderia esperar de um intelectual com o dinamismo crítico de AC J, acabou por surgir o momento em que o seu meio de intervenção directa se desdobrou para o plano da publicação de textos num órgão de imprensa portuguesa em Macau.
Perfazendo já três longas séries de crónicas, (“Lugares de Cidadania”, (1999), “Entreposto” (2002) e “Conversas do Chá e do Café” (2003) nelas são abordadas múltiplas temáticas, ora preferindo os caminhos menos imediatos da metáfora, ora apontando as vacas pelo próprio nome, sem deixar de lançar mão, por vezes, da mais ácida ironia, sintomática de uma indignação que se contém nos limites da civilidade, mas não está disponível para se auto-silenciar.
No plano da acção cívica, estas crónicas representam, de forma continuada e tematicamente alargada – e, porventura, no local mais adequado - uma vontade de falar claro sobre aspectos da vida da cidade, incluindo aqueles que anteriormente já abordara, (com impertinência?) em alguns textos de abertura de catálogos de exposições.
Se valorizarmos devidamente o facto de estarmos aqui a observar a actividade de AC J ao longo de vinte e cinco anos, concedendo à respectiva dimensão cívica a elevada importância que o próprio manifestamente lhe atribui, não podemos deixar de assinalar o significado de uma produção literária que complementa o desígnio interventivo, presente sob diversas formas desde os tempos em que iniciou a sua actividade à frente do Museu Luís de Camões e que, com estas crónicas, situa a proclamação das Ideias e dos Princípios no plano da militância crítica mais explícita.
Seja como for, e porque discorrer acerca dessas crónicas não é o nosso objectivo, queremos acima de tudo notar o quanto são frequentes, nesses textos, as frases que podem iluminar a interpretação de sentidos, ou ajudam a perceber as múltiplas articulações, influências, analogias, transposições, metamorfoses, enfim, todas aquelas pontes que tornam possível a AC J a circulação entre diferentes processos de mediação de significados. Julgamos ser suficientemente exemplificativo deste aspecto, o conjunto de citações que anexamos em caixa própria, cuja recontextualização propomos como apoio para o melhor entendimento do trabalho artístico propriamente dito.
Sai assim reforçada a percepção aguda da coerência cívica e cultural que se manifesta em todos os planos de actuação de AC J, tanto mais surpreendente quanto são múltiplas as vias por que se exprime.

Viagem interminável
Aparentemente, o trânsito por diferentes áreas de expressão teve por consequência a interrupção produtiva em algumas delas, para dar oportunidade a outras. É o que sentimos, por exemplo, no que se refere à Banda Desenhada, à Pintura e à Fotografia, nas quais nos parece que AC J suspendeu precocemente o desenvolvimento que os trabalhos realizados prenunciavam.
Porque em AC J tem sido maior e mais constante o impulso para conhecer novos territórios, mais do que o de permanecer longamente instalado em algum deles (e, no entanto, tanto quanto sei, as actividades de Pintor e de Fotógrafo de AC J já conheceram, pelo menos, dois ciclos distintos, no tempo e nos objectivos) e é manifesto o fascínio que sobre ele exerce a hipótese de praticar em áreas a que ainda não aplicou a sua criatividade. E quantas mais haverá…

Dir-se-ia que o pessoano Não evoluo, viajo conhece, na personalidade criativa de AC J, uma variante em que a viagem se faz, não entre diferentes personalidades, mas entre diferentes regiões já demarcadas das artes visuais, do design, da encenação, da escrita… e do cyber-espaço.
Claro que não é concebível um artista que não evolui. Mas, não só há diferentes tipos de evolução, como há igualmente modos diversos de a Obra reflectir esse fenómeno. Assim, por exemplo, se para os artistas ditos confessionais, é importante explicitar na Obra sinais que testemunhem os percalços do processo criativo, as oscilações do humor e até vicissitudes da vida pessoal, numa atitude auto-biográfica mais ou menos explícita, já para outros a alusão às hesitações, aos avanços e recuos e até aos acidentes psico-biográficos, é matéria que decididamente pretendem manter ausente do conteúdo manifesto dos seus trabalhos.
Obviamente, eu incluiria AC J neste segundo tipo. A personalidade artística que adopta como substância central da Obra o seu próprio drama existencial, tenderá para uma estética de tipo romântico e expressionista, enquanto que o artista que não se toma a si mesmo como assunto da própria Obra, estará sobretudo interessado na objectividade dos meios e no pensamento abstracto-simbólico. Afigura-se-me que o que fascina AC J é a possibilidade de especular, não acerca de si, mas acerca das formas - e com elas - e seus significados. O que alimenta o seu élan criativo é a possibilidade exaltante de poder viajar num mundo simbólico pré-existente, consciente da dimensão referencial dos materiais e do alcance antropológico da organização das formas, visitando e redescobrindo sucessivamente os diferentes territórios em que poderá exercitar, pela metamorfose dos materiais e dos significados, a sua sensibilidade técnica e, através desse exercício, concretizar ciclos inventivos que geram a apetência para nova viagem, nova corrida…

Acontece que estas opções cheiram a falso caso não tenham raízes bem fundas na personalidade, necessariamente formada na interacção com o meio. Por isso, elas não serão fruto de preferências arbitrariamente assumidas como que por capricho da razão, ou desígnio programático voluntário, premeditado a frio. E porque a caracterização da Obra artística se faz inevitavelmente no contexto da maior ou menor proximidade a universos estilísticos concretos, com os quais o artista se identifica profundamente, ou seja, subjectivamente, é no âmbito do multiculturalismo, enquanto atitude filosófica, que se exerce o espírito de abertura que dedica consideração atenta à diversidade étnica e suas manifestações culturais, fontes inspiradoras inesgotáveis, fazendo delas a substância de uma reflexão estratégica, social e historicamente situada, consequente em termos artísticos e cívicos.

É por isso certamente que os trabalhos de AC J são manifestações expressivas de um cruzamento cultural múltiplo, cujos referentes pertencem ao mundo que os portugueses criaram, mas em que a proximidade das tradições estéticas extremo-orientais foi conquistando maior presença, tendendo a tornar-se referência predominante.
Nada que não tenha encontrado novo alento e novos pretextos de navegação criativa com o acesso ao cyber-espaço – outro espaldar do ginásio mental de AC J e seu frequente assunto de reflexão e combate cívico-cultural!
Nada, afinal, que não fosse expectável num Macaense que, física e mentalmente instalado em Macau à entrada do século XXI, navega em direcção a horizontes culturais cada vez menos estanques e mais apetecíveis, não, certamente, por razões de evasão irresponsável, mas por necessidade de conhecimento, identificação, equilíbrio e crescimento.

 

   

In Revista