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ENTREPOSTO E VIRTUALIZAÇÃO
Experimente, o leitor ou leitora, pôr a mão no bolso ou na mala, e
identificar pelo tacto os objectos que tem, entre moedas, lenço, chaves,
carteira ou a bolsa dos cosméticos. Verá que vê sem olhar.
De facto, do que se tem vindo a falar em matéria de cegueira, se relaciona
esta também com a capacidade e a vontade de vislumbrar o futuro. Essa é a
visão e a viagem, redundantemente interior, que importa fazer num momento
de viragem de verdades tidas ainda há bem pouco tempo como irrefutáveis
dogmas e que já se encontram, neste momento, em progressiva fossilização
ou erosão, tudo dependendo das vontades da visão aludida.
Com efeito, o termo virtual decorrente do código binário, diálogo
matemático entre o zero e o um, e a digitalização do mundo, vem trazer
novos desafios nascidos em Sillicon Valley.
A chegada de um email ao nosso computador vem anunciar uma revolução
tecnológica que a muito curto prazo irá conduzir à inevitável extinção do
correio tradicional, pela progressiva e galopante disseminação da
internet, tornando em breve obsoleto o selo da carta. Apenas ficará por
resolver a transferência dos objectos tridimensionais.
Tal desenvolvimento já é acompanhado de conversas em tempo real, de
televisão integrada e de telefones a custos baixíssimos.
Decorrem desta revolução vantagens e inconvenientes, a requererem uma
reflexão participada sobre tão candente tema.
CONTEÚDOS E CONCEITOS
Não vem longe o tempo em que a Escola alternativa, a Universidade, será um
monitor de televisão equipado com um teclado ligado ao aparelho por
infra-vermelhos. De momento os conteúdos disponíveis no espaço virtual,
novo cosmos sem astronomia outra que a deposição de saberes e
conhecimentos.
Este desenvolvimento que merecerá a rejeição de muitos, inadaptados à
irreversibilidade tecnológica do devir, já por estes é praticado de outra
forma: o dinheiro de plástico, absolutamente virtual, global e indiferente
às moedas dos países ou, no caso da União Europeia, ao Euro.
A revolução digital - possibilitando já visitas virtuais a museus,
bibliotecas, cidades, pessoas, médicos, generalistas e especialistas,
advogados, juristas, anunciando a dupla identidade e cidadania: a real e
outra virtual, onde o tempo comprime a distância e o vizinho é alguém que
vive nos antípodas, cidadão ele também, da urbe virtual - irá atingir
todas as áreas, da banca à identificação dos cidadãos, à gestão do
orçamento doméstico.
A caducidade dos conceitos vigentes alarga-se não só à própria criação
artística, como também ao próprio âmbito da Economia e do Comércio.
Ao nível da pintura por exemplo, e na era onde o virtual é digital, o
pintor do futuro deixará de usar pincéis, tanto quanto o gráfico deixou de
utilizar a cola para montar os textos. A pintura liberta-se lentamente do
oficinal acto de pintar, para se concentrar na sua essência: a exploração
de formas. Depois, uma impressora de jacto de tinta, irá transpôr para a
tela, fielmente, o resultado das deambulações formais do artista.
Resistências houve com o vídeo como expressão artística, o mesmo sucedendo
às instalações, sucedâneas do conceito tradicional da escultura.
A nível das economias, prevê-se pelo ano 2001 que as transacções
efectuadas através do chamado E-Commerce ou Comércio Electrónico, sediado
na Internet, ultrapassem os US$20 triliões, montante absolutamente
astronómico, a requerer de todos os governos e instituições, uma
particular atenção ao reajustamento ou reconfiguração das suas economias e
dos seus mercados e produtos, e consequente liberalização e reajustamento
dos serviços que suportam esta importante fatia do comércio internacional.
No mesmo ano prevê-se que 40 por cento do volume de negócios total se
processe pela Internet e que 70 por cento dos utilizadores mundiais serão
clientes do Comércio Electrónico. Ainda de acordo com a Price Waterhouse,
fornecedoras de computadores como a CISCO e a Gateway têm um volume de
vendas electrónicas diário no valor de centenas de milhares de dólares,
equivalente a 10 por cento do seu volume total de vendas. A Dell, por sua
vez, realiza na internet, para cima de 6 milhões de dólares por dia.
O ENTREPOSTO NO MAPA
Em uma crónica anterior referi que haveria que encontrar uso para as
infraestruturas criadas em Macau, uma vez que estas são mero suporte
logístico de algo a haver.
Ora a exiguidade do Território recomenda que este recorra à sua própria
Memória para se reconfigurar num verdadeiro Entreposto de saberes, de
culturas e de comércio crescentemente electrónico.
O surgimento de uma Sillicon Valley a Oriente, não só ajudaria a colocar
Macau verdadeiramente no mapa, como faria a diversificação da economia
disparando-a enquanto Entreposto, com predominância para o sector criativo
dos serviços.
Resumindo: o que vender? Sem dúvida que com a criação da Região
Administrativa Especial de Macau parece óbvio que a Cidade se vocacione,
diversificada, para ser o software criativo de produtos na República
Popular da China, onde, como se sabe, a mão-de-obra é acentuadamente mais
barata.
Porém, para que a diversificação de serviços se verifique, haveria que ser
entendido que uma economia de mercado como é a do espaço virtual - e
também a dos próprios clientes das exportações tradicionais de Macau - não
pode contemplar monopólios ao nível das comunicações, que tendem a criar
restrições ao nível de capacidade de transferência de conteúdos, à
escassíssima oferta de servidores comerciais para alojamento de conteúdos
e mecanismos de transacções comerciais, com idênticas configurações, a
preços internacionalmente concorrenciais.
A todo este cenário faltaria reformatar a banca, legislando a
liberalização do leasing, e de outros serviços, como a abertura de
internet credit accounts, mecanismos fundamentais para a conquista de
alojamentos, bem como a existência de business plans que permitam uma
rápida proliferação desta área comercial cujo êxito determinaria, estou
certo, uma importante e saudável regeneração do tecido económico de Macau.
Em Cidadania real ou virtual, o reposicionamento de Macau constituiria, a
seu modo, uma actualização para com o devir, eminentemente tecnológico.
Sendo Entreposto local de mediação, não pode o mesmo aguardar passivamente
o fim da crise asiática.
A mediação é, tal como o permanente diálogo binário entre o zero e o um,
também ela uma descodificação, forçosamente do devir, funcionando a
diversos níveis já aludidos: culturais, tecnológicos, e comerciais.
Também porque tendo simultaneamente, produtor e consumidor à porta, e para
além desta o mundo, saiba-se dar o devido trânsito às infraestruturas, e o
devido aproveitamento a este lugar único de conjugação, fonte de
desenvolvimento integrado a aguardar vontade política e suficiente
esclarecimento sobre estas matérias que, diz o ditado, mais vale prevenir
que remediar. Mesmo virtualmente. |