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CRIATIVIDADE E LUGAR
Criar é um acto de descodificação e de antecipação de cenários e visões do
desenvolvimento das heranças culturais inerentes àquele que cria. Não é a
esse acto, de todo indiferente, o peso da cultura dentro da qual se opera
o acto de criar, porque é nas tradições religiosas, éticas e morais, ou
pela sua negação, que assenta este processo.
A Ocidente, está o acto criativo consagrado, desde o Princípio, no Verbo.
Tão só.
Assim, Criação e acto criativo como que se confundem, na tradição
judaico-cristã. Este procurando emular aquela, proveniente de Jeová, de
Javé, de Deus. É, mais que simbolicamente, a reconstituição de um acto
divino humanizante, porquanto, ao Sétimo Dia, o Criador descansa. Assim
está nas escrituras. O Deus de Abraão, de Jacob e de Moisés repousa do
esforço de criar, depois de também ter criado Adão, à sua imagem e
semelhança.
É este premeditado conluio no descanso, na humanização do sagrado
judaico-cristão que por sua vez sacraliza no homem o esforço deste em
emular a criação, pelas vias que sabe. É assim que nesta plataforma
deificante tem lugar o acto de tornar presente o futuro, característica
essencial da criatividade humana. O criador transforma-se no sacerdote que
ao longo dos séculos tem vindo a repetir a consagração da referência
máxima: tomai e comei. Sempre que o fizerdes, fazei-o em memória de mim,
sem que, todavia, lhe esteja inerente a mais bela conversa entre o homem e
o Criador: Pai nosso…
A Oriente, a relação com o sentido da divindade transmuta-se para um nível
cósmico, remetendo o homem, enquanto entidade criadora, para uma dimensão
entre o Todo e o Nada.
O acto de criar advém então, não na ascensão ao divino mas na
perceptibilidade da essência, na nulificação do ego enquanto entidade
ciente e física convivendo com uma realidade feita de aparências, de
ilusões que tendem a toldar, camada sobre camada, o âmago da consciência
pura, despida de interferências conducentes ao conhecimento mais depurado
de níveis de realidade diferentes.
Como já se inferiu, não é indiferente ao acto de criar a geografia.
Preside esta ao próprio nascimento do criativo, determinando-lhe cenário,
circunstância e herança cultural, definindo-lhe raízes de onde deverá
fazer crescer outras, subordinando-o a um contexto de onde também deverá
saír, para depois, regressar prodigamente.
Toda esta reflexão é-me suscitada pela revolução inovadora da Sociedade da
Informação, globalizante para uns, modernidade para outros, porventura
mais receosos de se diluírem em palavras mais comuns. Aos criativos não
importará em demasia a semântica como fim, apenas como meio. Importa
contudo notar que a mais presente das actualidades é produto do somatório
de todos os passados da Humanidade. Será pois dos arquétipos e dos signos
que o criativo recorre para estabelecer a sua linguagem específica.
Porém, mais do que a virtualidade da Sociedade de Informação, mais do que
as chamadas auto-estradas da informação, é a contemplação da linguagem
matemática do ciberespaço que suscita a eclosão de uma perplexidade
perante um novo Universo criado pelo homem.
Ao contrário de Deus ou da divindade, o homem criou a mais próxima e mais
imaterial das realidades, ou, porque não, a mais distantemente próxima
ilusão de realidade material.
Ao criativo, perante as tecnologias, depara-se-lhe um novo campo de
intervenção, não apenas no âmbito da linguagem virtual, mas mesmo na
recuperação e actualização de outras formas mais tradicionais de
expressão. Ou dizendo de outra forma, além de novas ordens económica,
jurídica, e mesmo de governação, a era digital da sociedade de informação
anuncia alternativas de criação artística sobre suportes imateriais, mas
nem por isso menos democratizados que a xilogravura, a litografia, a
gravura sobre metal ou a serigrafia.
Contudo, e dentro do acesso a outras realidades que Macau proporciona, a
Sociedade da Informação propõe um enorme desafio a cerca de um quinto da
população. Com efeito sabe-se que a maioria da população chinesa não fala
senão a sua língua, ainda que seja patente o surto de desenvolvimento que
ocorre há quase duas décadas.
Contudo numa ética que se deseja global, não podem ocorrer exclusões
decorrentes de um massivo predomínio de uma língua de comunicação.
Porém, não podendo o desenvolvimento tecnológico ser sustido pela vida
própria que adquiriu, a contemporaneidade da China ainda a mantém numa
situação de exclusão linguística na sociedade de informação.
Ao surto desenvolvimentista que sopra na China há que adicionar o seu
acesso de pleno direito a esta nova versão de sociedade das nações e de
cidadanias virtuais. Algumas razões de peso levam à expressão deste
desejo.
Constituindo a exclusão uma forma de discriminação, não se afigura viável
que a China e a sua cultura possam ou devam estar representadas por
sinólogos de outros países. Isto é, na sociedade de informação o acesso de
pleno direito é uma condição de autenticidade de conteúdos e de
legibilidade culltural.
Quiseram a História e a Economia, que o Ocidente tivesse uma prevalência
de disseminação cultural sobre o resto do mundo. Mas ao falar-se na China,
fala-se igualmente na Coreia e no Japão, portadores de uma escrita que
nenhuma romanização trará solução.
Assim existe um dilema que à partida exclui do acesso, usufruto e troca de
ideias, cerca de um quinto da população mundial, com as confirmadoras
excepções das regras, nas élites linguísticas destes países.
Por maioria de conteúdos e de razão, falhado há muito o esperanto, o
inglês é a inevitável língua de comunicação na sociedade de informação. E
estou certo que milhões de pessoas têm para com a China e os chineses uma
enorme expectativa relativamente ao seu acesso ao espaço virtual.
Põe-se assim ao multi-milenar Império do Meio a perspectiva e o desafio de
novamente se reinventar numa perspectiva de desenvolvimento integrado,
para que, com a proverbial sabedoria, possa teorizar sobre o espaço
virtual, e, sobre criação e criativos, emitir opiniões e publicar estudos
que permitam ao resto da humanidade virtualizada, aceder a outras visões
sobre o acto criativo. |