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II
ANDAMENTO
O NOME DO SANTO NOME
Todas as coisas querem nome, de todas uma inominável, apenas duas se não
explicam. Deus e o da Cidade do seu nome santo. Cidade nomeada, explicada
em étimos de ilusão erudita, venha a deusa A-Ma e com Deus converse, os
dois sorrindo da verdade dos homens, quantificadas em métricas de razão
equívoca, história prolongada dos tempos da Babel, fabulosa origem dos
desencontros.
Esteve a verdade sempre tão à tona, mas não a direi, porque o pouco que
sei aprendi, e cada um que aprenda, aprende-se não se ensina, encontre-se
na perdição das fábulas da vida e distinga-se delas o joio do trigo. Coma
o homem pão de joio antes de provar o trigo, saiba encontrar a ordem
natural das coisas, todo o caos é ordem e o inverso também, equívocos não.
Pela memória das ruas antigas povoadas de deuses mascarados de homens
anónimos, quanto mais humildes mais deuses, salpicam o caminho altares tão
humildes que mais valera serem baixares, tão próxima é a natureza dos
manes ocultos pelo fumegar do incenso, deuses olhando deuses, fantasmas
cheirando a poéticas de nostalgias diferentes, sons inaudíveis musicando o
compasso do tempo dos pregões. De que terra és tu que não falas à minha, o
meu pregão é outro, não compro nem tãopouco vendo, apenas olho entre o
belo e o horrendo, e assisto da janela dos nomes à procissão do tempo
deslizando pela cidade, dois préstitos e um caminho, todos passando, obra
de deuses para quem todos os becos são saídas de onde remanesce a
fragrância indescritível de odores que dão à alma o que o corpo precisa,
não há nariz ou palavra que descreva, apenas se suspeita ou adivinha.
Também António de Lisboa, Pádua e Macau é nome de santo, em tempos de
desespero lembrado e lá vai mais um ai meu Deus e, quando passa, lá
ficaram Deus e o santo para os outros que a vida continua e o resto pode
esperar.
Transforma-se a cidade na cadência do minuto, mas não o dia hoje como
ontem igual, apenas nós diferentes, uns para igual outros crescendo, cada
um em si mandando, alguns obedecendo, futuro não é do que se constrói,
antes daquele que dispõe o que o homem põe, seja ovo seja calhau, diga-se
assim e já não é mau.
Tem a escrita a cidade que suscita, lugar ritmado de cidadania, utopia que
não é mania, apenas matéria concreta do amanhã. Mas quem saberá senão nós,
que esta história antiga de que não falo, é fio retalhado, nodulado,
amarrado, sugado e consentido, abandonado e pressentido, dorido e
ressentido, a factura está pronta, alguém terá de ficar, ficam os homens,
e os últimos que paguem a conta.
Não vai ninguém abaixo, homens são como árvores, morrem de pé à maneira de
Goya, perdoe- -se aos crucificadores que cravos não ferem alma que não tem
corpo, apenas corpo tem alma, e firam mais que por cada cravo cravado dez
se irão cravar, assim diz Alá e não sei se existe, heterónimo dos deuses
todos, um só da eternidade vindo, cada um crê no que quer. Incrédulo é o
que vê sem se chamar Tomé a história que corre.
Quisesse o homem ser fraterno e encontraria o irmão, que mando e poder são
inverdades patenteadas, ontem disse, hoje não disse ontem. Mais fácil é
julgar que amar, que julguem e odeiem, dói o ódio a quem odeia, perdido
entre ser anás ou caifás, venha o diabo e escolha. Não te distraio que
estás distraído, como se fosses o centro de um quadrado.
Quadrado é raíz de cidade, módulo de passados antepassados, cidade velha,
cidade nova, mas que é isto de arqueologia, a tua voz é de cá? Apenas
existo vivendo, fingindo que escrevo escrevendo, escrevo assim e depois?
Não me sabes ler assim ou queres que seja outro? Sou eu apenas, mero grão
de arrozal, não enche o papo a galinha assim, cada grão outro e não
felizmente igual, como cidadãos em dias de festa.
Festas de faço minha cidade, pena que sejam festas contadas, contas breves
de dias, fossem festa os anos e não dias, e talvez um querubim viesse e
mudasse o tempo, e desse aos homens a suprema esperança do desafectado
afecto, e estes à natureza se dessem, e transformasse por ordem do
Supremo, que de onde está em lugar que não é, em tudo e todos mandando
segundo a lei de Moisés, Buda e Pessoa, sabendo construír os dias em
noites de vigília, porque já tudo está escrito muito antes de ser dito e
nada se apaga , analfabetos somos da eternidade, desencontrados na festa,
perdidos da fraternidade, mando de Deus e da sua natureza.
Fraternidade, afectos apressadamente suprimidos em lugar interior,
trocados pelo fácies social, pacto, tacto, olfacto, contacto, não me
toques nem aqui nem ali, nem hoje nem ontem, amanhã não estou. Sou
contrato de trato maltrato e… como está, contente-se e é muito. Não sabe o
homem que hoje é já seu passado e outro dia se passará, rosário finito de
diversas finitudes. Olhe-se o compósito propósito de restar o que resta.
Só eu sei o que presta, hã? que dizes ó ponto, fala alto! um momento. Não
ouço, estão-me a ouvir, repete depressa, onde foste ponto? ah que te
pesponto!
Máscaras e biombos, teatros de vidas consabidas na monotonia de uma pobre
nota que não é sol, quando muito ré fingindo de lá para aqui.
De novo se foram o santo, o dia e a festa, e uma solidão tremenda paira
sobre os homens, esvaziados de cheios de nada, clepsidra quase vazia,
fumegando memórias e aromas de ópio e de fantasmas de homens e mulheres
daqui contemplando tudo na sua translucência sem tempo, equador às voltas
no eixo, as horas a dar e a cobrar. Dobra-se também o fazedor de dobragens
que sempre há montanha maior, e todas as verdades já eram mentiras antes
de serem novas verdades.
Olhe-se para dentro, onde reside o divino espezinhado, enclausurado e
amordaçado, e invoquemos o santo nome do nome, e, se tempo tiver que tem,
mesmo de longe e de toda a parte, perdoar e abençoar os nossos atalhos de
barro, e com a vontade de um pensamento, transformar de novo o barro em
homem. |