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TANGO DE OUVIDO
Diz quem sabe, que a dança é, corporalmente, a expressão por excelência do
espírito.
Diz a história que o tango nasceu de emigrantes, dançado na penumbra dos
bares de Buenos Aires, ou nas vielas mal iluminadas, antes de ser
descoberto e elevado aos salões sociais.
Cantava Gardel: Tango que he visto bailar contra un ocaso amarillo por
quienes eran capaces de otro baile, el del cuchillo. Tango que fuiste
feliz como yo tambien lo he sido, segun me cuenta el recuerdo, el recuerdo
o el olvido.
Diz ainda quem sabe que o tango é indefinível estado de alma, jogo
esquecido e recordado, de sensualidade e nostalgia, tudo anunciado, nada
consumado,apenas o jogo puro de corpos e o silêncio do diálogo intuído.
Tango a sério só dançado marginalmente, diálogo de corpos, um falando, o
outro ouvindo, correspondendo, o instinto nascendo, os passos adivinhados,
retribuíndo-se, fio condutor de uma conversa sempre inacabada.
Tango não é dança de salão. Quem lá o colocou, enganou-se, ou
apaixonou-se.
E porém, tudo remanesce a uma fragrância de rosas, e o roçar dos sapatos
na calçada ou no sobrado.
Nada disto se ensina, apenas se aprende, e como tudo na vida, por
experiência própria, que a regra do tango é a do instante.
Entre o tango e o instante vai a prontidão para o diálogo, os sentidos
comandando o corpo, o espírito chamando os sentidos. Jogo de
inteligências, de paixão, de genuinidade, sempre foi esta a característica
do verdadeiro diálogo.
Quem dança o tango ou dialoga não pode mentir, nem mentir-se.
Tem o ouvido função primeira. A de ouvir escutando, mais vale ouvir que
falar, quem se ouve não escuta, apenas diz, ruídos descompassados,
ensurdecedores, trágicos, conversa impossível, sempre adiada. Eustáquio é
só trompa, ouça o homem pelo espírito e se não encha de verdades, que ao
contrário do tango, não se marginalizam, exaltam-se e esfumam-se no rol
dos dias. Venha da Montanha o Sermão, e por uma vez seja relembrado, mesmo
jejuado, sem pães nem peixes, sardinhas e febras há que chegue, já bastam
croquetes.
Venham Gardel, e Piazzola, e todos os profetas de todo o lado ensinar a
quem não quer, que mais do que tropeçar, só dança quem sabe ouvir. |